De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Quem tinha razão era Magalhães Pinto, velha raposa política e ex-governador de Minas Gerais. A política é mesmo como nuvem. Uma hora, você olha e vê uma coisa. Olha de novo e ela já mudou.

Se estivesse vivo, seria o que ele diria sobre o período da campanha presidencial que agora se encerra. Do início de abril, quando se desincompatibilizaram os principais candidatos, ao fim de junho, quando começa a reta final da sucessão, tudo ficou diferente.

A entrada em campo de Serra era aguardada há meses. É verdade que ele teve que disputar, até dezembro, o posto de candidato com Aécio, ainda que não se preocupasse muito com as aspirações do mineiro. Estava convencido de que o PSDB terminaria por lhe entregar a vaga.

De qualquer maneira, o fato é que, desde quando Aécio saiu do páreo, nada mais restava em seu caminho. Com a candidatura assegurada, teve amplo tempo para se preparar, montar sua estratégia, organizar sua equipe. Ainda que continuasse, de janeiro a março, com suas obrigações de governo, pôde pensar com calma no que faria quando saísse do Palácio dos Bandeirantes.

Com algum retardo (que ajudou a manter o suspense sobre sua decisão até a véspera do prazo fatal), ele finalmente renunciou ao cargo de governador e virou candidato. Juntou-se a Dilma que, dias antes, havia deixado o ministério.

Entre o começo de abril e meados de maio, Serra viveu seus melhores 45 dias desde quando iniciou sua jornada em busca da Presidência. Quem tiver alguma memória se lembrará do que andaram dizendo seus correligionários e publicaram aqueles que por ele torcem na imprensa carioca e paulista.

Era como se estivesse ali começando para valer a sucessão, com um goleador nato, em momento inspirado, mostrando seu melhor futebol. Para eles, Serra fazia um gol atrás do outro, com postura serena, palavras sempre bem escolhidas, hábeis manobras.

Pelo que se lia nesses jornais, enquanto Serra conquistava novos apoios, Dilma perdia os dela. Era apenas questão de tempo até que as pesquisas assinalassem seu crescimento. Enquanto não vinham, as colunas estavam cheias de especulações sobre “pesquisas internas”, que já o mostrariam bem à frente da adversária.

Se era esse o tom da cobertura a respeito do candidato tucano, via-se o inverso no que era publicado sobre a petista. Parecia que uma desastrada havia entrado em campo, cometendo um erro depois do outro. Precipitação, amadorismo, inabilidade, incompetência, era isso que se falava dela e de sua campanha. Chegaram a dizer que Lula andava nervoso, agitado, irritadiço.

As nuvens, no entanto, mudaram. Se o sol parecia brilhar para Serra até o meio de maio, a chuva desabou de lá para cá. Viu-se que a falta de traquejo eleitoral não prejudicava Dilma. Ela cresceu nas pesquisas, suas alianças se confirmaram, outras surgiram. Gorou a esperança de que a propaganda partidária de PSDB, DEM, PPS e PTB, somadas, mudassem o panorama. Na maioria dos estados, alegrias para o governo, decepções para a oposição. Lula já não franzia mais a testa. Quando junho chegou ao fim, ele era só sorrisos.

Ficou, no entanto, para o apagar das luzes da “pré-campanha”, o pior momento. O episódio da escolha do companheiro de chapa de Serra tem tudo para entrar para a história.

Desde a quarta-feira, quando Índio da Costa foi confirmado, já se falou tanto que é até cruel insistir no assunto. Qualquer argumento em favor de seu nome chega a ser risível, desde o potencial de seus 40 anos atraírem a juventude e provocarem a reversão do voto no Sudeste, à densidade de sua biografia de “ficha limpa”.

Mas resta uma pergunta: por mais que as pessoas se julguem imortais, um candidato a presidente não tem a obrigação de raciocinar com a hipótese de vir a faltar, por qualquer motivo? Não foi, talvez, pensando assim que Collor escolheu Itamar, que Fernando Henrique convidou Marco Maciel, que Lula optou por José Alencar?

Goste-se ou não de Michel Temer, nem seus inimigos negam que tem experiência e qualificações para, se imperativo, substituir Dilma. E Índio da Costa?

Fonte: Blog do Noblat

04 de julho de 2010

O desfecho do processo de escolha do candidato a vice-presidente na chapa do PSDB não teve propriamente vencidos e vencedores. Todos perderam.

É claro que a visão da superfície é a de que José Serra cedeu ao DEM ao aceitar um demista como vice. O DEM ganhou, então, certo? Não, errado.

Não ganha quase nada um partido que vê um deputado federal seu de pouca expressão ser colocado no papel de vice. O DEM não teve a menor influência na escolha do nome de Índio da Costa. A conjuntura –não controlada pelos demistas– é que desembocou em Índio.

Terminada a novela “Álvaro, l breve”, o PSDB e o publicitário Luiz Gonzalez à frente queriam encontrar alguém “filiado ao DEM, que tivesse a imagem de honesto e fosse uma novidade”, nas palavras de um tucano. Outro fez uma anedota: “Essa condição era quase um conjunto vazio”. Mas chegou-se ao nome de Índio da Costa, deputado de 39 anos, do Rio de Janeiro e em seu primeiro mandato.

O nome de Índio da Costa foi, portanto, uma imposição do PSDB. Assim: “O vice vai ser do DEM, mas quem escolhe sou eu e vocês engolem”. Pode-se dizer então que Serra prevaleceu, ganhou? Não. O tucano equivocou-se de maneira quase inacreditável ao acreditar nos seus conselheiros mais próximos a respeito da escolha anterior –o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que foi o candidato a vice-presidente do final de sexta-feira (25.jun.2010) até o começo da tarde de quarta-feira, ontem (30.jun.2010).

Como Serra não conseguiu arrastar Aécio Neves para o cargo de vice-presidente, prevaleceu a noção de que as outras opções eram todas de menor relevância no sentido de trazer um impacto nacional. Essa premissa verdadeira levou a uma ação errada. Escolheu-se Álvaro Dias porque, pelo raciocínio tucano, Serra estaria pelo menos selando uma aliança fortíssima no Paraná –um Estado relevante da região Sul, com expressivos 5,63% dos eleitores do país.

Serra não fez sozinho a escolha Álvaro Dias como vice. Também tiveram relevância na hora de a decisão ser tomada o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), e o deputado federal Jutahy Júnior (PSDB-BA), cuja função na campanha é ser um dos mais fiéis aliados de Serra.

Qual era a lógica (que estava completamente errada)? Álvaro como candidato a vice-presidente amarraria o apoio de seu irmão, o também senador Osmar Dias (PDT-PR), para o candidato do PSDB ao governo do Paraná, o ex-prefeito de Curitiba, Beto Richa.

Nessa fórmula, Osmar Dias seria candidato à reeleição ao Senado numa aliança com Beto Richa . Formar-se-ia uma “coalizão dos sonhos” no Paraná, isolando o PT. A candidata de Lula ao Planalto, Dilma Rousseff, ficaria sem um palanque viável na disputa pelo governo paranaense.

Deu tudo errado. Para começar, os tucanos exercitaram sua provebial soberba. Permitiram que a decisão vazasse da pior forma possível: pelo Twitter de Roberto Jefferson, deputado cassado por causa do escândalo do mensalão. O DEM chiou e Jefferson respondeu com seu estilo arranca-toco: “O DEM é uma merda!!!”. Enquanto isso, os tucanos assistiam ao degradante espetáculo em estado de catatonia.

A reação retórica do DEM ameaçando romper a aliança foi o menor dos problemas para José Serra. Grave mesmo foi Serra e a cúpula do PSDB não terem avaliado corretamente o grau de animosidade (histórico) entre os irmãos Álvaro e Osmar Dias. Não foram capazes de antever o problema, visível a olho nu para qualquer um que circula pelo salões de carpete azul e encardido do Senado.

Deu a lógica.

Mesmo com seu irmão ainda sendo o candidato a vice-presidente de Serra, na noite de terça-feira, dia 29.jun.2010, Osmar Dias flopou. Anunciou ser candidato ao governo do Paraná, com o apoio do PT –e apoiando a petista Dilma Rousseff para presidente.

Por volta das 23h00 de terça-feira, todos os serviços de notícias online já publicavam textos demolidores: “Irmão do vice de Serra será candidato ao governo do Paraná e vai apoiar Dilma (PT) para presidente”.

Até a eclosão dessa notícia da defecção de Osmar Dias se materializar na noite de terça-feira, o cenário era o seguinte: 1) a cúpula do DEM estava reunida na residência do senador Heráclito Fortes (DEM-PI), em Brasília, em clima de velório; 2) os demistas estavam dando de barato que não teriam como impor a Serra a derrubada de Álvaro Dias do cargo de vice-presidente. Procuravam um discurso para explicar publicamente porque novamente estavam se humilhando para os tucanos; 3) Serra, em São Paulo, negociava um discurso conciliador para fazer uma afago público no DEM. Seria “um apelo em nome do Brasil” ou outra platitude do gênero usada nessas horas.

Aí os demistas foram salvos por Osmar Dias. Ao embaralhar todo o cenário paranaense as coisas ficaram complicadas para Serra. Não fazia mais sentido manter Álvaro Dias como candidato a vice –ele não tinha sido capaz de unir a política paranaense em torno do projeto presidencial de Serra.

A cúpula tucana ainda tentou falar com Osmar Dias na noite de terça para quarta-feira. O deputado Jutahy Júnior não teve sucesso. Osmar Dias não o atendeu.

Em certa medida, esse episódio revela como a candidatura de Serra está limitada “na política”, como se diz em Brasília. Erros são cometidos em uma campanha. OK. Mas esse da indicação de Álvaro Dias como candidato a vice-presidente parece estar no ponto mais alto na escala da ingenuidade no mundo da “Realpolitk”.

Bagunça instalada, na “noite de São Bartolomeu” de terça (29.jun) para quarta (30.jun), Serra enfurnou-se em sua casa em São Paulo com dois demistas –Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, e Rodrigo Maia, presidente nacional do DEM– e com Aécio Neves, que viajou às pressas de Belo Horizonte para a capital paulista.

Até por volta das 5h30 da madrugada de quarta-feira (30.jun), alguns dizem até 6h, Serra analisou todas as hipóteses à sua frente. Nada decidiu, exceto que Álvaro Dias teria mesmo de ser descartado. Para escolher o nome do substituto, aquiesceu que poderia ser alguém do DEM –afinal, não faria muita diferença àquela altura a filiação partidária do escolhido. Uma lista de deputados e de senadores demistas foi apresentada. Cada nome foi escrutinado na manhã de quarta-feira.

A escolha de Índio da Costa não foi, portanto, uma vitória do DEM nem uma derrota de Serra. Foram as circunstâncias que engolfaram demistas e tucanos. Todos perderam.

O DEM não está um centímetro maior nem mais forte por causa da indicação de seu deputado Índio da Costa como vice de Serra. Se Serra vier a ganhar, o papel do DEM no futuro governo será idêntico ao que teria sido mesmo com o tucano Álvaro Dias como vice –muitos cargos espalhados na Esplanada. Se Serra perder, rapidamente será esquecido que houve algum dia um demista como vice.

Alguém se lembra do nome do candidato a vice-presidente na chapa derrotada de Geraldo Alckmin ao Planalto em 2006? Ou o nome de vice na chapa perdedora de Serra em 2002? Bolsa memória: em 2002, Serra teve consigo Rita Camata (então no PMDB e indicada por força do marqueteiro Nizan Guanaes, que defendia “o nome de uma mulher”). Em 2006, o vice de Alckmin foi José Jorge (então senador pelo DEM, à época PFL, de Pernambuco).

O saldo do episódio da escolha do vice é que DEM e PSDB, sobretudo o PSDB e Serra, gastaram energia inútil com um assunto que poderia ter sido resolvido “na política”, muito mais facilmente, sem crise.

Essa inabilidade política toda pode ter sido provocada por dois fatores principais. Primeiro, porque os tucanos talvez sejam mesmo ruins “de política”. Foram forjados por uma conjuntura econômica (o Plano Real, em 1994) e nunca tiveram realmente o dom para a grande arte da negociação. O segundo fator é que quando uma campanha começa a ter problemas... outros problemas nascem quase por geração espontânea.

Tudo considerado e bem pesado, a chapa de oposição Serra-Índio não passa por um bom momento. Nada está decidido na disputa pelo Palácio do Planalto. É verdade. Mas erros políticos como esse da novela “Álvaro, o breve” podem causar o naufrágio completo num estágio mais avançado da campanha.

Blog: Fernando Rodrigues.

02 de julho de 2010

Eduardo Castro


Correspondente da EBC para a África

Maputo - Um centro de estudos de Moçambique está perto de registrar a primeira vacina contra a malária, a doença que mais mata no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 3,3 bilhões de pessoas - metade da população do planeta - estão expostas ao também chamado paludismo. São infectados anualmente 150 milhões – o equivalente às população somadas do Brasil, de Portugal e da Espanha. O número de mortes por ano chega a 1 milhão.

Mais uma rodada de testes de campo foi feita nessa quinta-feira (13) em Manhiça, vila que fica a 100 quilômetros de Maputo, capital moçambicana. Lá é que está instalado o Centro de Investigação de Saúde de Manhiça (CISM) – instituição criada em 1996 como resultado da cooperação bilateral entre os governos local e da Espanha. O CISM é o primeiro centro de investigação biomédica moçambicano para combater doenças que são causa e conseqüência da pobreza, como a malária, a aids, a tuberculose, as pneumonias e as doenças diarreicas. O centro tem laboratórios em que são desenvolvidas pesquisas que auxiliam no tratamento da população da região.

Uma dessas pesquisas é a da vacina RTS-S, que está na terceira fase de testes, de quatro necessárias à qualificação para uso. Nessa fase, grupos de voluntários recebem doses da vacina para avaliação e acompanhamento. Antes disso, foram feitos  testes pré-clinicos em laboratório, para avaliar a segurança do fármaco. Na segunda fase, a vacina passou por testes de eficácia e resposta imunogênica. Depois de terminada a fase atual, o produto ainda terá que ser aprovado e registrado pelos diversos órgãos internacionais para ser comercializado.

O pesquisador-chefe Jahit Sacarlal lembra que a terceira fase de testes da vacina começou em agosto do ano passado e ainda está reunindo crianças para participar dos estudos. “Serão pelos menos mais três anos. Mas esta á a primeira, a mais avançada que existe no mundo e penso que nos próximos 5 a 10 anos será a única disponível no mercado internacional”, diz o médico.
       
A pesquisa para criar a vacina antimalária envolve outros 11 centros de estudos da África, em Burkina Faso, no Quênia, em Malawi, Gana, no Gabão e na Tanzânia. O mais próximo de chegar ao resultado prático, no entanto, é o de Moçambique, segundo o diretor do CISM Eusébio Macete. “Esperamos que até meados do próximo ano haja dados suficientes para submetermos a vacina à análise inicial das agências internacionais de medicamentos”, afirma.

Apesar de sua escala planetária, até hoje a forma mais eficaz de combater a malária é evitar o mosquito do gênero Anofilis, que transmite o parasita Plasmodium, que causa a doença. Evitar o acúmulo de água, pulverizar áreas externas e residências e usar  mosqueteiros impregnados com inseticida são algumas das formas mais comuns.

“A malária tem cura quando tratada adequada e rapidamente”, diz Caterine Guinovart, médica epidemiologista do CISM. “O problema é que muitos, quando chegam ao hospital, já é tarde”. Alguns pacientes só procuram o médico em estado debilitado, porque menosprezam os primeiros sintomas Outros têm dificuldades de chegar aos centros de saúde, principalmente nas áreas mais isoladas do interior da África.

14 de maio de 2010

Eleições e Ilusões


De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi:
Enquanto a grande maioria da população dá sucessivas mostras de estar satisfeita com o governo, continua a existir uma parcela da opinião pública que não. Dentro dela, há quem tenha alguma simpatia por Lula e até enxergue virtudes em seu trabalho, admire sua trajetória ou ria de suas tiradas. Mas não gosta do governo e, quase sempre, tem ojeriza ao PT. São aqueles que aceitam o presidente, mas não querem que sua turma permaneça.

A existência desse tipo de sentimento fica clara nas comparações entre a avaliação do governo e o desejo de continuidade. Nas pesquisas, a proporção dos que o aprovam enfaticamente, dizendo que é “ótimo” ou “bom”, anda na casa dos 75%, e há outros 20% que o consideram “regular”. Somados, beiram os 95%, o que deixa apenas 5% da população para repartir as opiniões de que é “ruim” ou “péssimo”.

Quando, porém, se pergunta a respeito de quanto do que Lula faz gostariam que fosse mantido, mais de 20% dos entrevistados responde que preferiria que houvesse mudanças na maior parte ou na totalidade das políticas. É verdade que a opção por mudanças completas é pequena e corresponde quase exatamente à da avaliação negativa. Ainda assim, deve-se registrar que há mais pessoas que o aprovam (agregando avaliações positivas e regulares) que querendo a continuidade de tudo (desejo de 35% delas) ou da maioria das coisas (40%) que faz.

Para alguns dos que querem mudanças, o gesto de Lula, quando escolheu Dilma para sucedê-lo, soou como bravata. É como se ele a tivesse indicado pelo que ela não tem (experiência eleitoral, carisma, jogo de cintura) somente para afrontá-los. “Inventar” uma candidata como ela seria um arroubo de poder, tornado possível pela escassez de lideranças dentro de seu partido. Querer que ela ganhasse seria, no entanto, ir longe demais, atribuir-se uma missão de altíssimo risco, apenas pelo gosto do desafio e a perspectiva de, obtendo sucesso, infligir uma derrota humilhante ao que resta de oposição.

Cada um desses eleitores olha para Dilma e não a vê como simples candidata, em quem se pode ou não votar em função de escolhas racionais. Para eles, ela é uma espécie de provocação ambulante, a encarnação de tudo de que não gostam em Lula, no PT e no governo.

Enquanto ela permaneceu lá atrás nas pesquisas, o mal era menor. Ao contrário, muitas dessas pessoas ficavam felizes a cada confirmação de que o sonho onipotente de Lula estava ameaçado. Quando, no entanto, ela começou a subir, o quadro se complicou. Não é que o impossível passou a ser provável?

Uma parte relevante da mídia brasileira compartilha esses sentimentos. Na verdade, em algumas redações, estão muitas das pessoas mais extremadas nessa mistura de desaprovação ao lulismo e indignação frente à hipótese de Dilma vencer.

Nenhum problema nisso. Afinal, editorialistas, colunistas e repórteres são também filhos de Deus, e possuem as mesmas prerrogativas das pessoas comuns. Têm todo direito de não gostar do que não gostam.

O que é discutível é permitir que suas preferências interfiram em seu trabalho a ponto de comprometê-lo. Por exemplo, deixando-se levar por elas na hora de informar a opinião pública sobre o que está acontecendo na eleição.

Um tom de indisfarçável torcida marcou o noticiário de abril. Quem leu o que vários órgãos da chamada grande imprensa publicaram só ficou sabendo dos “erros de Dilma” e os “acertos de Serra”, os primeiros provocando o “desespero” de Lula e abalos na coligação governista, os segundos gerando empatia na sociedade e novas alianças políticas. Foi informado de que o saldo disso seriam “novas pesquisas”, que mostrariam o avanço de Serra.

Pode ser que venham, mas ainda não chegaram. O que todas as conhecidas apontam é para um cenário de estabilidade: quando se comparam os resultados do final de março, antes da desincompatibilização, com os do final de abril, nada mudou. No Datafolha, a distância entre Serra e Dilma aumentou um ponto, no Ibope, dois. Ou seja, ficou igual. É o mesmo que indicam outros levantamentos, ainda não publicados. A marola do noticiário não parece ter alcançado, pelo menos por enquanto, a imensa maioria do eleitorado. E será que vai tocá-la nos próximos meses?

Torcer é bom e faz parte da política. Querer que seu candidato vença e os outros percam é um sentimento natural. Mas torcer não rima com informar.

09 de maio de 2010

ELIANE CANTANHÊDE

BRASÍLIA - Afora o oportunismo do líder do PT, Cândido Vaccarezza, ao criticar o "uso indevido da estrutura da Câmara" para fazer campanha (como se o PT jamais fizesse isso), o PT e todo mundo deveriam se indignar contra funcionários -sabe-se lá se a mando dos chefes ou não- que enviam e-mails atacando com baixíssimo nível Dilma Rousseff ou qualquer candidato.

Usar e-mail do Congresso, do governo, dos Estados e das estatais para campanha não é exclusividade do DEM, como bem sabemos. Deve-se condenar, mas há quem condene só por conveniência.

O problema nos e-mails da oposição é o conteúdo. Falar em "Dilma Rousseff e suas vítimas fatais" e em "assaltos a banco, sequestros, delação de colegas e tudo o mais" é equiparar a oposição à mais atrasada e raivosa direita incrustada sobretudo na reserva militar.
Provavelmente, isso não tira um só voto de Dilma, mas subtrai pontos na ética, na confiança e na credibilidade da oposição. E, claro, pode respingar em José Serra. Em sabendo, ele aprova o jogo sujo?

Os deputados Paulo Bornhausen e ACM Neto substituíram os dois principais líderes do falecido PFL, Jorge Bornhausen e Antonio Carlos Magalhães -que, aliás, divergiam principalmente quanto aos métodos- para conferir um sopro de modernidade e de vitalidade ao partido na virada de uma sigla para a outra. Não está dando certo, e os e-mails são um meia volta, volver.

No mínimo, martelar que Dilma foi "guerrilheira" é infantilidade de jovens deputados e seus talvez também jovens assessores. No máximo, uma estratégia condenável.

Vaccarezza está careca de saber que tanto as estruturas públicas são fartamente usadas nas campanhas quanto alguns petistas em todos os níveis de poder (são tantos!) estão muito mais afoitos e agressivos no ataque via internet. Mas ganhou um presentão da oposição e do PP, que é meia oposição: o direito de gritar contra a covardia.

elianec@uol.com.br

09 de maio de 2010

Pesquisas Discrepantes


De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi:


Se as diferenças entre as pesquisas surpreendem até quem as faz, imaginem-se as pessoas que não estão familiarizadas com elas. Desde o jornalista especializado ao cidadão comum, a surpresa pode se tornar perplexidade.

Estamos vivendo uma fase de pesquisas discrepantes, após meses de convergência das que foram publicadas a respeito das próximas eleições presidenciais. O que parecia um consenso entre institutos e levantamentos tornou-se uma polêmica.


É curioso notar que quem é hoje demonizado era, até ontem, tratado com consideração. Os institutos, seus responsáveis e métodos de trabalho não eram questionados por ninguém, nem no meio político, pelos partidários de Dilma ou Serra, nem pela imprensa, que informava os resultados de cada um com a imparcialidade possível. Agora, parece que todo mundo virou culpado de alguma coisa.


De fato, para quem tem o hábito de acompanhar as pesquisas brasileiras, as diferenças recentes podem soar estranhas. Estamos acostumados, depois de muitas eleições, a não ver maiores variações entre elas. Os institutos tendem a acertar (quase sempre) e a errar (de vez em quando) juntos.


Nos Estados Unidos, por exemplo, variações como as dos últimos dias, de até 10 pontos percentuais entre um e outro instituto, são consideradas normais. Seria até ridículo o Partido Republicano entrar na Justiça contra alguém que fez uma pesquisa mostrando Obama na frente. Já na Argentina, todos diriam que são modestas, pois a regra, por lá, é de as pesquisas apresentarem diferenças abissais. Em poucos países do mundo se daria atenção às que estamos vendo por aqui e, certamente, não se especularia sobre se provêm de algo escuso.


Todos sabem que há diferenças de metodologia entre os institutos brasileiros, que decorrem de suas opções técnicas e operacionais. Nenhuma é melhor que a outra, pois todas apresentam prós e contras. Não existe, em nenhum lugar do mundo, o manual da pesquisa perfeita, a ser obedecido por todos. É um sonho autoritário (e inviável) imaginar o dia em que só haverá uma metodologia, aplicada por um só instituto. Se chegasse, nenhum democrata teria o que comemorar.


Uma das melhores coisas das pesquisas é que elas são inteiramente francas sobre algo que as outras informações que o eleitorado recebe costumam não explicitar: que são falíveis. Quem lê uma pesquisa foi avisado de que ela pode errar e é alertado sobre quanto. É como fumar conhecendo o que está escrito no maço.


Ao avaliar as pesquisas, as margens de erro não são coisas para registrar e esquecer, mas para lembrar. Não é o mais provável, mas é perfeitamente possível, que 10 pontos de diferença entre Serra e Dilma (consideradas as margens) sejam 5 pontos, o mesmo que diz uma pesquisa cujo resultado é uma diferença de um ponto entre os dois. Politicamente, 10 pontos ou um fazem uma enorme diferença, mas podem não ser nada (ou quase nada) em termos estatísticos.


Quem analisar com mais cuidado as pesquisas de agora vai perceber que são unânimes na caracterização das intenções espontâneas de voto. Na mais recente do Ibope, Dilma tem 15% e Serra 14%. Na Vox, Dilma 15%, Serra 12%. No Datafolha, Dilma 13%, Serra 12%. Na Sensus, Dilma 16%, Serra 14%. Em qualquer lugar do mundo, quem olhasse esses números diria que os institutos brasileiros estão inteiramente de acordo sobre o que pensam os eleitores mais definidos, os que tendem a ser mais politizados e interessados nas eleições.


Mas o mesmo consenso não acontece na caracterização das intenções de voto dos que só respondem em quem votariam depois de estimulados. As diferenças de metodologia explicam parte da discrepância (mesmo que, do ponto de vista estatístico, sequer se possa afirmar que ela existe).


O mais provável, contudo, é que elas variem apenas por não haver, ainda, suficiente cristalização das intenções de voto no universo do eleitorado. É o fenômeno que se quer retratar que é volátil, não que alguma pesquisa esteja certa e as outras erradas.


Aliás, pesquisa certa ninguém sabe qual é. Só no dia 3 de outubro teremos certeza sobre o que os eleitores, de fato, querem. Até lá, o máximo que podemos fazer são pesquisas bem feitas e isso todos tentam. Tolo é quem acha que só ele consegue.

25 de abril de 2010

Marcos Coimbra

Enquanto Dilma estava “empacada”, distante de Serra, superada por Ciro, perdendo para Heloísa Helena e Aécio, as oposições não viram motivos para se inquietar. Agora, no entanto, depois da divulgação das primeiras pesquisas feitas em 2010, o panorama mudou.

Estamos vivendo, neste começo de ano, um período de inquietação dentro das oposições. Seja em seus representantes políticos e nas lideranças da sociedade civil que se alinham com elas, seja na parcela da opinião pública que não gosta do governo, é nítida a perplexidade. As coisas não estão acontecendo como esperavam.

Ao lado daqueles que nunca o aceitaram, Lula passou a ter, nos últimos anos, uma aprovação quase que a contragosto, característica da classe média com alguma informação. Na maior parte das vezes, vinda de pessoas que jamais votaram nele, sequer no segundo turno de 2006, mas que se viam como que constrangidas a concordar que seu governo tem lá alguns méritos.

Talvez se sentissem fora de lugar, quando eram informados dos recordes de popularidade que Lula batia a cada pesquisa. Talvez colocassem em dúvida suas próprias antipatias, ao saber que nunca antes, na história deste país, um presidente brasileiro fez tanto sucesso mundo afora.

Daí a aceitar que ele fosse capaz da proeza de eleger alguém como Dilma, no entanto, a distância é grande. Uma coisa é reconhecer, ainda que com várias ressalvas, suas qualidades. Outra é se conformar com a possibilidade de ele continuar a ser o que é por mais alguns anos.

Ou seja, enquanto perdurou, entre essas pessoas, a sensação de que o fim do lulismo estava próximo, o cenário podia ser complicado, mas era suportável. Tudo de que desgostavam ainda existia, mas tinha data marcada para acabar.

A larga vantagem de Serra nas pesquisas funcionou como uma espécie de seguro de que a hegemonia de Lula na política brasileira, com tudo que dela decorre, não continuaria. Lendo-as apressadamente, muita gente ficou com a impressão de que Dilma estava fadada a perder a eleição. Alguns foram ao ponto de assegurar que isso já estava definido, o que soou como música para os desafetos do governo, mas não era verdade.

Nenhuma pesquisa nunca disse isso. Ao contrário, todas sempre apontaram o largo potencial de crescimento da ministra, que permanecia atrás nas intenções de voto apenas por ser menos conhecida que alguns dos outros candidatos e ainda pouco associada a Lula e à ideia de continuidade.

Enquanto Dilma estava “empacada”, distante de Serra, superada por Ciro, perdendo para Heloísa Helena e Aécio, as oposições não viram motivos para se inquietar. Cada pesquisa nova era recebida com alegria, como se decretasse que a “transferência de Lula para Dilma” era balela, um cálculo político mal feito, fruto da onipotência presidencial.

Agora, no entanto, depois da divulgação das primeiras pesquisas feitas em 2010, o panorama mudou. Nos meios políticos, a discussão deixou de ser a respeito de se Lula vai ou não precisar de um plano B e passou a ser sobre quando Dilma assumirá a dianteira.

Essa mudança de cenário provoca reações compreensíveis dentro das oposições, nelas incluída a mídia simpática às suas lideranças e propostas. Como tudo na eleição de 2010, também o recrudescimento do debate, típico do clima de reta final de campanha, está sendo antecipado. Os ataques continuados e não justificados ao Bolsa-Família são um exemplo.

Talvez tenha sido Lula quem puxou a fila da incivilidade na campanha, mas, muito provavelmente, fez isso de caso pensado. Ao polemizar em tom agressivo com as oposições, ele torna mais difícil para elas poupá-lo de suas críticas e concentrar o fogo em Dilma.

Fazendo o oposto do que fazem alguns governantes, que se orgulham de posar como magistrados e preferem se colocar “acima” da disputa eleitoral, Lula sobe no palanque (quem não o faria, sabendo que é aprovado por mais de 80% da população?). Assim, reitera que a oposição tem que alvejá-lo, coisa que ela preferiria não ser obrigada a fazer.

Enquanto Lula dá mostras de estar a cada dia mais tranquilo, as inquietações da oposição fazem com que ela se confunda e emita sinais errados para a opinião pública. Existe exemplo maior que Aécio ser apresentado como vice de Serra a toda hora? Apenas para que ele o desminta? Apenas para que Serra se fragilize, seja percebido como alguém que só tem chance se Aécio for seu vice?

Artigo publicado originalmente no Correio Brasiliense

07 de fevereiro de 2010

Emir Sader

Há 10 an os que se estão formando as primeiras gerações de médicos de origem pobre na América Latina. Não estão sendo formados pelas excelentes universidades publicas latinoamericanas, que têm os melhores cursos tradicionais de medicina do continente. Nem falar das universidades privadas.

Eles estão sendo formados pelas Escolas Latinoamericanas de Medicina, projeto iniciado há 10 anos em Cuba e que agora já conta com uma Escola similar na Venezuela e tem projeto de ampliar-se para países como Bolívia e Equador. São selecionados estudantes por cotas de movimentos sociais –originários do movimento camponês, do movimento negro, do movimento sindical, do movimento indígena e de outros movimentos sociais -, se tornam alunos do melhor curso de medicina social do mundo e retornam a seus países para praticar os conhecimentos adquiridos não na medicina privada, mas na medicina social, pública, nos lugares que os nossos países mais precisam, sem contar normalmente com os médicos formados nas universidades tradicionais.

Cuba transformou uma antiga instalação militar – a Academia Naval Granma – em uma universidade médica latinoamericana, para que milhares de jovens privados de estudar medicina nos seus países, possam ter acesso a esse curso em Cuba e retornem a seus países para atender necessidades que não são contempladas pela medicina tradicional.

Além da melhor medicina social que se pode dispor hoje no mundo, os alunos recebem formação histórica sobre o nosso continente, respeitando-se as convicções – políticas, religiosas – de cada aluno. “Médicos dispostos a trabalharem onde for preciso, nos mais remotos cantos do mundo, onde outros não estão dispostos a ir. Esse é o médico que vai ser formar nesta Escola” – dizia Fidel na inauguração da Escola.

A primeira turma se formou em 2005. Formar um médico nos EUA custa não menos de 300 mil dólares. Cuba está formando atualmente mais de 12 mil médicos para países do Terceiro Mundo, em uma contribuição inestimável para os povos desses países. Mesmo passando dificuldades econômicas nas duas ultimas décadas, Cuba não diminuiu nenhuma vaga na Escola Latinoamericana de Medicina – como, aliás, nenhuma vaga nas escolas cubanas, nem nenhum leito em hospital.

Desde a formação da primeira turma, em 2005, graduaram-se médicos de 45 países e de cerca de 84 povos originários. Formaram-se 1496 médicos em 2005, 1419 em 2006, 1545 em 2007, 1500 em 2008, 1296 em 2009. Os três países que tiveram mais médicos formados na Escola são Honduras, com 569, Guatemala, com 556 e Haiti, com 543. Atualmente mais de 2 mil alunos estudam na Escola. A procedência social deles é em sua maioria operários e camponeses. As religiões predominantes são a católica e a evangélica.

A Escola em Cuba – em uma cidade contigua a Havana – é integrada por 28 edificações numa área de mais de um milhão de metros quadrados, onde os estudantes recebem o curso pré-medico e os dois primeiros anos do curso de medicina, de ciências básicas. Depois os alunos recebem o “ciclo clínico” nas 13 universidades médicas existentes em Cuba. O corpo geral de professores é de mais de 12 mil.

O Brasil também já conta com cinco gerações de médicos, formados na melhor medicina social, sem que possam exercer a profissão, propiciada pela generosidade de Cuba. Os Colégios Médicos tem conseguido bloquear esse beneficio extraordinário para o povo brasileiro, alegando que o currículo em que se formara, não corresponde exatamente ao das universidades brasileiras – uma forma corporativa de defender seus privilégios.

As nossas universidades públicas costumam ter as vagas ocupadas por alunos que se preparam muito melhor que a grande maioria, por dispor de recursos econômicos que lhes possibilitam ter formação muito superior às dos outros. Assim, em geral tem origem na classe média alta e na burguesia, que desfrutam da melhor formação que as universidades públicas possuem, gratuitamente, sem que a isso corresponda a contrapartida de exercer medicina social, nas regiões em que o país mais necessita.

Essas instituições corporativas não devem se preocupar, as centenas de médicos formados na Escola Latinoamericana de Medicina não abrirão consultórios nos Jardins de São Paulo, na zona sul do Rio ou em outras regiões ricas das capitais brasileiras. Eles irão fazer a medicina social que o Brasil precisa, atendendo a demandas que não são atendidas pelos médicos formados nas melhores universidades públicas brasileiras, mas que derivam seus conhecimentos para atender a clientelas privadas, em condições de pagar consultas e tratamentos caros.

As negociações para o reconhecimento dos diplomas dos jovens médicos solidários formados em Cuba estão em desenvolvimento, com apoio do governo brasileiro, mas ainda não chegaram a uma solução que permita o aporte dessas primeiras gerações de médicos brasileiros de origem popular.

Fonte: Agência Carta Maior

16 de novembro de 2009

Mexer no que está quieto nem sempre é um bom negócio.  A mexida quase sempre traz aborrecimento para as partes envolvidas. É o caso da mudança de fuso horário no Acre.

Em abril do ano passado, o Senado aprovou uma alteração proposta pelo senador acreano Tião Viana (PT). O presidente Lula sancionou e os ponteiros dos relógios foram adiantados em uma hora.

A mexida provocou todos os tipos de manifestações. Obrigados a despertar mais cedo, os cidadãos fizeram suas reclamações ecoar. O ronco veio de todos os segmentos, principalmente do interior do Estado, onde crianças, de uma hora para outra, tiveram que acordar de madrugada para chegar, ainda no escuro, à escola.

A mudança do fuso deixou muita gente confusa. Além do Acre, mais 46 cidades do Amazonas foram atingidas. O Estado do Pará passou a ter o mesmo fuso de Brasília.

Teoricamente, os objetivos do projeto eram nobres, pois visava facilitar o transporte aéreo, as comunicações e a integração com o sistema financeiro nacional da região.

Há, no entanto, quem identifique pressão da Rede Globo de Televisão para que sua grade de programação não seja prejudicada.
A Globo é poderosa mesmo. Mas o problema do projeto está longe de ser essa suposta pressão da “Vênus Platinada”. A falha maior é que buliu na vida de milhares de pessoas sem que elas tenham sido consultadas.

Não se toma uma decisão desse porte sem obter a aprovação de quem será atingido. É regra básica.
Surpreendidos pelas reclamações das ruas, os defensores do projeto argumentaram que o Acre ainda não era devidamente reconhecido pelo governo federal, que, 1913, regulamentou a Hora Legal, instituindo os quatro fusos, a partir do meridiano de origem, o de Greenwich.
Disseram que as vantagens seriam grandes. Tentaram nos convencer por meio de propaganda oficial veiculada nos canais de televisão, nas emissoras de rádio e em outdoors.

Não há como negar que as argumentações daqueles que defenderam e defendem o projeto têm fundamento. São embasadas em fatos concretos. Mas a única justificativa que falta é a da não-consulta popular. Essa consulta seria imprescindível para que o procedimento fosse legitimado.
Sem o voto do povo, é legal, mas é ilegítimo.
Sou daqueles que reclamou da forma com fui obrigado a adiantar o ponteiro do meu relógio de uma hora para outra. Não reclamo do conteúdo, mas bato duro na forma.

Nascido em 1965, sou de uma geração que teve seus direitos democráticos cerceados por conta de uma ditadura militar que vigorou no Brasil durante longos 21 anos. A conquista democrática por meio do voto é uma das maiores do povo brasileiro.
Se o Brasil sofreu mais de duas décadas com privação de direitos, o que dizer do Acre, um Estado marcado pelo patrulhamento e a tutela do governo federal durante a maior parte dos seus 106 anos?

Sim, é verdade que houve uma revolução armada para que o Acre fosse visto pelo governo brasileiro. A luta que começou no dia 6 de agosto de 1902 só foi consagrada por vias diplomáticas em 17 de novembro de 1903, com a assinatura do Tratado de Petrópolis.
Incorporado ao Brasil, o Acre não foi transformado em Estado, como sonharam os revolucionários. Para manter o controle pleno da região, o governo brasileiro criou a figura esdrúxula e inconstitucional chamada Território Federal.

No Território Federal, as pessoas que aqui moravam eram brasileiras de fato, mas não tinham seus direitos mais comezinhos respeitados. Essa situação durou 59 anos, até a transformação do Acre em Estado.

Esse Estado democrático, no entanto, teve vida curta. Eleito em 1962, o professor José Augusto de Araújo foi deposto no dia 8 maio de 1964, data em que a ditadura militar se abancou no poder acreano.

O Acre só pôde eleger seu segundo governador em 1982, quando já contava com 79 anos de vida. Ganhou o peemedebista Nabor Júnior.
Hoje, felizmente, o país respira ares de liberdade democrática. Essa foi uma conquista de todo o povo brasileiro. Muitas vidas foram perdidas em defesa da democracia. É em memória daqueles que tanto lutaram que não podemos abrir mão dos nossos direitos de escolher aquilo que é melhor para nossas vidas.
Como muitos, sou favorável à realização do referendo, embora admita que estou plenamente adaptado e satisfeito com o atual fuso.

Votarei pela manutenção da atual situação caso o projeto do deputado federal Fernando Melo (PMDB), propondo referendo, seja também aprovado no Senado.
A expectativa é de que os senadores aprovem e confirmem a decisão tomada semana passada na Câmara dos Deputados. Até Renan Calheiros (AL) e José Sarney (PMDB) foram chamados para entrar no campo das articulações. Os tucanos também serão convocados.

Calheiros e Sarney são desafetos declarados de Tião Viana. A turma do PSDB foi orientada a seguir a dupla peemedebista.
Há o entendimento na oposição de que o referendo enfraquecerá Tião Viana e poderá fazer decolar a candidatura ao governo do tucano Tião Bocalom e do peemedebista Rodrigo Pinto, que ainda patina.

Essa articulação nacional deixa claro que o pessoal da oposição acreana não está tão preocupado com a democracia ou com os prováveis atropelos sofridos pela população em razão da mudança de fuso operada no ano passado.

A impressão que fica é de que opositores pretendem se pendurar no ponteiro do relógio para, em vez de fazer retroceder uma hora, retornar aos anos da política atrasada que durante horas, dias, meses e anos empurrou o Acre para trás.

Alguém com o mínimo de sensatez e inteligência precisar alertar os opositores de que é pouco inteligente montar uma estratégia eleitoral a partir de um fato como esses.

É claro que, pelo fato de o referendo ser realizado no mesmo dia da eleição, o senador Tião Viana, provável candidato ao governo, sofrerá algum de tipo de desgaste.

Mas não será apenas com essa bandeira que a oposição conseguirá obter a vitória. É preciso algo mais. Foi-se o tempo em que a população acreana se encantava com discursos desfocados da realidade e órfãos de conteúdo.

A oposição não pode perder tempo. Está parada no tempo. Passa da hora de apresentar um projeto de desenvolvimento para contrapor o modelo defendido e implementado pelo atual grupo que está no poder há quase 11 anos.

Essa mais de uma década é tempo suficiente para aprender e ensinar. Já se passaram quase cem mil horas sem que a oposição tivesse a capacidade de estudar os problemas do Acre. Para arranjar e propor soluções. Talvez seja por isso que ainda esteja capenga de liderança capaz de juntar todos em torno de um projeto comum.

Um grupo político que pensa em chegar ao poder não pode acreditar que apenas o atraso de uma hora no ponteiro do relógio irá conduzi-lo ao poder. Quem aposta no atraso sempre perde o horário dos seus compromissos. O compromisso da urna está próximo. Quem não tiver projeto perderá o bonde da história.

Leonildo Rosas

Fonte: Página 20

09 de novembro de 2009

NELSON LIANO JR.


É comum no Orkut, MSN, Twitter os internautas brincarem entre si questionando a existência do Acre. Acredito que isso acontece sem nenhuma maldade, muito pelo contrário. O fato é que nos mais recentes anos a população retomou a sua acreanidade colocando o nosso pequeno Estado em pauta em vários momentos a nível nacional e internacional. Foi assim com a mini-série Amazônia, com a candidatura a sede da Copa do Mundo, a participação do senador Tião Viana (PT-AC) nas eleições do Senado, a repercussão da saída da senadora Marina Silva (PV-AC) do PT e tantos outros fatos. Assim o Acre deixou de ser apenas um ponto no extremo ocidental do mapa do Brasil.


Na semana passada mais um fato provou que o Acre não só existe como também é preocupado com o destino dos seus cidadãos e cidadãs. A comitiva de deputados da Aleac que foi à Bolívia para verificar a situação dos estudantes em Santa Cruz de La Sierra mexeu com uma comunidade de mais de cinco mil universitários brasileiros vindos de diferentes estados. Tinha estudantes do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Acre, São Paulo e outros lugares do território nacional. Eles ficaram espantados ao verem oito parlamentares acreanos e dois secretários de Estado debatendo as dificuldades que vivem para conseguirem um titulo de medicina na Bolívia. O Cônsul do Brasil em Santa Cruz também ficou intimidado.


Sob a batuta do presidente da Aleac, deputado Edvaldo Magalhães (PC do B), dois ministros bolivianos da educação e justiça foram visitados. O Congresso Nacional da Bolívia recebeu a delegação acreana com admiração. Até o presidente da Companhia Aérea, Aerosur, que faz os vôos para Cobija, prometeu ajudar. Uma verdadeira interferência diplomática de um Estado com pouco mais de 700 mil habitantes.

Tudo isso fruto da nova acreanidade que transformou o destino das Terras de Galvez. Uma jornada diplomática que deveria ter sido cumprida pelos nossos deputados federais e senadores, não só do Acre, mas de todo o Brasil.


No entanto, depois de todo o trabalho os maiores beneficiados foram mesmo os alunos acreanos que ficaram “empoderados” diante dos seus compatriotas dos outros estados. O que a gente ouvia pelos corredores das universidades visitadas em Santa Cruz eram expressões como: “Por que os deputados do meu estado não fazem isso? Poxa o Aécio(governador de Minas) podia ajudar a gente. Será que agora vão tratar a gente melhor no nosso consulado” e, por aí vai...


O secretário estadual de direitos humanos, Henrique Corinto, falou para os estudantes que o Governo tem obrigação de cuidar dos seus conterrâneos indiferente de onde estejam. A realidade é que com esse movimento todo desencadeado por Edvaldo Magalhães com o apoio irrestrito do governador Binho Marques (PT), mais uma vez o Acre está na vanguarda da política.

Poderíamos dizer que com esses processos integracionistas com a Bolívia e o Peru estamos inaugurando uma nova modalidade de diplomacia regional fronteiriça.

Muito mais palpável e real do que as longas e intermináveis reuniões diplomática nas embaixadas que acabam tratando do sexo dos anjos. Como diria o Silvio Martinello, “ o Acre é mesmo enjoado...” 

06 de novembro de 2009