Essa palavra existe na Bolívia.

Impressionante o quanto e como é intensa a mudança que está sendo operada na Bolívia. Um olhar conservador verá apenas atraso, como dizem sempre.

Um olhar mais atento e comprometido compreenderá que uma mudança profunda, de largo alcance e de sentido histórico, está em curso. Liderada pelo MAS e sob a coordenação de Evo Morales.

A viagem que a delegação acreana fez à Bolívia tinha um objetivo específico: ver de perto pra contar de certo as condições em que os brasileiros vivem ao aventurar-se numa jornada de estudante na busca do sonho da formação em medicina.Tratamos do objeto, mas também deu pra ver e perceber o embate político e ideológico em torno dos rumos do país e das disputas em função das eleições de 6 de dezembro próximo.

Chegamos a La Paz na noite de terça-feira. Ali fomos recepcionados por dois senadores Bolivianos, Andres Guzman e Leonída Zurita Vargas. Um gesto que apontava para a importância que estavam dando à nossa missão.Eram 11:15 da noite quando chegamos ao hotel em que os dois senadores nos aguardavam para um jantar. Desde cedo ali estavam, nos esperando.
A audiência com o Ministro de Educação Roberto Aguilar, acompanhado que foi de seus dois vice ministros, deu para debatermos na exata medida e com a clareza necessária a agonia dos estudantes brasileiros que por vezes, conforme palavras do próprio ministro, são vítimas de algumas universidades.O ministrou sensibilizou-se, propôs medidas e estabeleceu prazos. Um janela de cooperação com o governo do Acre na área da formação de professores ficou pactuado.

Com a ministra de justiça - Celina Torrico, tratamos da aproximação política institucional na fronteira. Falamos do seminário Acre-Pando a ser realizado em novembro e da necessária cooperação. Uma agradável conversa de quem tem compromissos com seu povo e sua história.

Antes de embarcamos à Santa Cruz estivemos com um dos principais executivos da AeroSur, empresa aérea boliviana, Oscar Vargas Claure. Dali saiu um compromisso com a integração aérea.
Esticar os vôos até Rio Branco e uma proposta de descontos especiais para alunos e familiares a ser apresentada até o dia 15 de novembro ao governo do Acre.
Duas grandes plenárias reuniu cerca de 1500 estudantes, pela manhã e tarde, na UDABOL e na UCEBOL, respectivamente.
Nossa delegação à mesa, acompanhada do Cônsul Geral em Santa Cruz – Roberto Pessoa da Costa e respectivas reitorias. Ali o estudantes soltaram o verbo. Ao abrir o encontro afirmei que não haveria tema proibido. Primeiro lhes demos a palavra. Ficamos ali, atentos ouvindo suas queixas. Foram incisivos, duros.Souberam reconhecer a importância daquela missão e nos cobraram bastante. Me senti militante do movimento estudantil.
A moçada foi direta. O problema do “visa” (excesso de exigências na concessão do visto de estudante) como questão central e geradora de outros problemas. Abordaram os maus tratos sofridos por funcionários do consulado que não se importam com seus problemas.Do achaque permanente de propineiros, servidores de órgãos públicos e da polícia boliviana por conta dos embaraços com o visto.De discriminação, ausência completa de direitos. Da insegurança e do medo. De casos de abuso sexual.Da inexistência de regras claras na cobrança de taxas por parte das universidades. E principalmente da discriminação por parte das instituições de ensino do Brasil que os tratam como profissionais de segunda.Os desabafos foram sempre acompanhados de efusivos aplausos, demonstrando a concordância da maioria presente.
O pronunciamento dos parlamentares foi no sentido da mão estendida e solidária. Do compromisso com a causa destes brasileiros que pela primeira vez foram ouvidos na Bolívia.Um ar de satisfação tomou conta de toda delegação. Mais uma vez o Acre fez história.
O governador Binho Marques foi representado pelos secretários de Justiça – Henrique Corinto e da Casa Civil, Manchini.Posicionamentos claro e acolhedor à comunidade acreana presente.

A associação de pais se fez representar pelo presidente Evandro. Falou da angustia e da necessidade de mudanças na relação entre o país e os estudantes brasileiros.

Ao Cônsul coube o papel de encerrar as falas nas duas plenárias. Reconheceu os problemas e assumiu o protagonismo na tomada de medidas. Sugeriu a formação de uma espécie de conselho popular composto por 08 (oito) estudantes. Quatro de cada plenária.
O papel destes conselhos é servir de elo entre os brasileiros e o Cônsul tratando dos problemas do cotidiano. Uma eleição direta com braços ao ar legitimou os conselheiros e conselheiras. Uma conquista da nossa presença em Santa Cruz. O consulado brasileiro precisa se transformar imediatamente num espaço de acolhida e não em território de maus tratos aos brasileiros, foi o que se pactuou.
A escolha de 04 estudantes que acompanharão as audiências em Brasília foi um ponto importante para dar desdobramentos ao debate iniciado ali.
A galera ficou animada e esperançosa. Afinal de contas alguém descobriu, por descaminhos, que mais de 5 mil brasileiros estão em busca de sonhos na Bolívia, e sofrem por lá.
Terminamos aquelas plenárias com a sensação do dever cumprido. Não faltaram sessões de conversas e fotos. Os estudantes sentiram-se acolhidos. Ponto para a Assembléia que soube sentir o pulso dos acontecimentos e agir. Parlamento aberto faz assim.
