Poema da Tarde


Esperança


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
- ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

(Mario Quintana)
19 de agosto de 2009

Saber Viver

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar

(Cora Coralina)

17 de agosto de 2009
Há uma gaita que geme e desafia

Por Pedro Tierra

Filho do barro
e da esperança: Adão.
Pai
da palavra, da trova, do canto,
apoiado na gaita e na invenção.
Regressas ao barro,
na estação das chuvas,
como quem fecunda...
Levas no corpo que baixa sobre o pampa
- e se enterra com a lágrima
de teus irmãos e amores e filhos e sonhos -
a surda condição da semente.
Em que madrugada
o corpo de Adão Pretto
se apartou do barro
e se fez vagido, grito, palavra, canto?
Em que marcha as foices
levantaram a vontade da manhã,
acenderam a luz azul dos seus olhos
e desataram o rio da palavra
que brotou de sua garganta?
Havia uma cruz e uma encruzilhada.
Havia frio. E medo.
E a morte dos anjos.
Havia panos brancos sobre os braços da cruz
como bandeiras de paz.
Para que não se extravie a memória dos anjos.
Havia medo.
E a palavra como centelha
acendendo no acampamento
uma canção de coragem.
Ouvidos que ouvem e olhos que brilham
contra a tarde de cinzas.
Há uma gaita que geme e desafia.
Sempre haverá
enquanto houver ouvidos
que acolham e desafiem a ordem,
o medo, a submissão.
Não houve tempo para colher a semeadura.
Mas houve tempo suficiente para erguer os olhos
e deixá-los contemplar a bandeira vermelha
- sinal de terra livre -
no portal dos assentamentos.
Há uma gaita que geme e desafia
a ordem, o medo, a submissão.
A gaita de Adão Pretto
desafia o silêncio.

Brasília, 05 de fevereiro de 2009.

Pedro Tierra é militante do Partido do Trabalhadores e das lutas pela Reforma Agrária.
06 de fevereiro de 2009

Mundo do Sertão


Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.

Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.

E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,

o Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.

Ariano Suassuna
05 de fevereiro de 2009




Anímico

Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.

(Adélia Prado)
03 de fevereiro de 2009

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Uns

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto -
A segurança nossa?  Este é o dia, 
Esta é a hora, este o momento, isto 
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos.  No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos.  Colhe 
o dia, porque és ele.

<!--[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false PT-BR X-NONE X-NONE MicrosoftInternetExplorer4 <![endif]--><!--[if gte mso 9]> <![endif]-->(Ricardo Reis)

30 de janeiro de 2009

Canção do Dia de Sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

(Mário Quintana)
29 de janeiro de 2009

 

UM PEIXE

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.

(Pagu)

05 de dezembro de 2008
 



Nunca

Nunca a alheia vontade, inda que grata, 
Cumpras por própria. 
Manda no que fazes, 
Nem de ti mesmo servo. 
Ninguém te dá quem és. 
Nada te mude. 
Teu íntimo destino involuntário 
Cumpre alto. 
Sê teu filho.

Ricardo Reis
04 de dezembro de 2008

Poesia sem nome

Vísceras amorfas
despertam a ira
dos anjos

E o cheiro de naftalina
emprega o ritmo
das horas

Por todos os cantos
o pó reveste
o que havia de límpido

E enquanto a garganta
engasga o grito,
as folhas sujas do jardim
balançam ao vento.

Vássia Silveira
03 de dezembro de 2008